Querer Bem


 Achei que devia deixá-los em casa e depois seguir para um hotel na cidade. Por nada no mundo eu teria ido para a casa de Dom Genaro; mas Nestor não quis sair do carro, nem Pablito, nem eu. Acabamos em casa de Pablito. Ele mandou Nestor comprar cerveja e Coca-Cola, enquanto a mãe e as irmãs nos preparavam alguma coisa para comer. Nestor fez uma brincadeira e perguntou se podia ser acompanhado pela irmã mais velha, caso fosse atacado por cachorros ou bêbados. Pablito riu e me disse que Nestor lhe tinha sido confiado. 

 — Quem o confiou a você? — perguntei.
 
 — O poder, é claro! Houve um tempo em que Nestor era mais velho do que eu, mas Genaro lhe fez alguma coisa e hoje ele é muito mais moço. Você viu isso, não viu? 

 — O que foi que Dom Genaro fez? — perguntei.
 
 — Sabe, ele o tornou criança de novo. Ele era muito importante e pesadão. Teria morrido, se não tivesse ficado mais moço. 

 Havia algo de verdadeiramente cândido e cativante em Pablito. A simplicidade de sua explicação era esmagadora, para mim. Nestor estava realmente mais moço; não somente em aparência, mas agia como uma criança inocente. Eu sabia sem dúvida alguma que ele sinceramente se sentia como uma criança. 

 — Tomo conta dele — continuou Pablito. — Genaro diz que é uma honra tomar conta de um guerreiro. Nestor é um bom guerreiro. — Os olhos dele brilhavam, como os de Dom Genaro. Ele me deu uns tapinhas nas costas, com força, e riu-se. — Queira-lhe bem, Carlitos — disse ele. — Queira-lhe bem.  

 Eu estava muito cansado. Senti uma onda estranha de uma tristeza feliz. Disse-lhe que eu vinha de um lugar em que as pessoas raramente se querem bem, quando querem.                                 

 — Eu sei — disse ele. — A mesma coisa acontece comigo. Mas sou um guerreiro e posso me dar ao luxo de lhe querer bem.




(Porta para o Infinito) 

Sou eu quem caminha esta noite 
em meu quarto ou sou o mendigo 
que espreitava em meu jardim 
ao cair da noite?

Olho ao redor

e descubro que tudo
é o mesmo e não é o mesmo...
A janela estava aberta?
Não havia eu já adormecido? 

Não era verde-pálido o jardim?...
O céu era claro e azul...
e há nuvens
e está ventando
e o jardim está escuro e triste.
 
Penso que meu cabelo era negro...
Eu me vestia de cinzento...
E meu cabelo é cinzento
e estou vestindo negro...
É este o meu passo?
Tem essa voz, que agora ressoa em mim,
os ritmos da voz que eu costumava ter?
Sou eu mesmo ou sou o mendigo
que espreitava em meu jardim
ao anoitecer?

Olho ao redor...

Há nuvens e está ventando...
O jardim está escuro e triste...
Eu venho e vou... Não é verdade 
que eu já adormeci? 
Meu cabelo está cinzento... E tudo é o 
mesmo e não é o mesmo...


(Juan Ramón Jiménez)


 

Voltaremos A Encontrar-nos



 - Vou sentir a sua falta, Fernão – foi tudo quanto disse. 

 - Henrique, que é isso? – exclamou Fernão, reprovador. – Não sejas tolo! Afinal, o que tentamos nós aperfeiçoar todos os dias? Se a nossa amizade está dependente de coisas como o espaço e o tempo, quando finalmente os ultrapassarmos, teremos destruído a nossa irmandade. 

 "Ultrapassando o espaço, tudo o que nos resta é Aqui. Ultrapassando o tempo, tudo o que nos resta é Agora. E entre o Aqui e o Agora, não achas que nos podemos encontrar uma ou duas vezes?  

 Henrique Gaivota sorriu, mesmo sem querer. 

 - É um pássaro muito louco – disse gentilmente. – Se existe alguém capaz de mostrar a um pássaro no chão como ver a mil e quinhentos quilômetros de distância, esse alguém é Fernão Capelo Gaivota.

(Richard Bach)