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De Virtute Audendi


 Entretanto, isto eu te comando com todo o meu Poder: 
 Vive perigosamente. 
 Não foi esta a palavra de teu tio Friedrich Nietzsche? Teu pior inimigo é a inércia da mente. As coisas que os homens mais odeiam são as que os atingem no íntimo; e eles temem a luz, e perseguem os portadores de tochas. Analisa pois a fundo todas as idéias que os homens temem; pois a Verdade dissolverá o Medo. 
 Com justiça dizem os homens que o Desconhecido é terrível; mas erroneamente temem eles que o Desconhecido se torne o Conhecido. Além disto, executa todos os atos de que gente comum se arreceia, salvo onde já tenhas pleno conhecimento; para que tu possas aprender Uso e Controle, sem caíres em Abuso e Escravidão. Pois o covarde e o temerário não prolongarão seus dias. Toda coisa tem seu reto uso; e tu és grande na medida em que tens uso das coisas. Este é o mistério de toda arte mágica, e teu domínio sobre o Universo. Entretanto, se tu hás de errar, sendo humano, erra antes por excesso de coragem que por excesso de cautela; pois é a fundação da honra do homem que ele ousa muito. 
O que diz Quintus Horatius Flaccus na terceira Ode do seu Primeiro Livro? Morre de pé!

Além Do Bem E Do Mal

  All great things must first wear terrifying and monstrous masks in order to inscribe themselves on the hearts of humanity.






Friedrich Wilhelm Nietzsche, Beyond Good and Evil (1885-86).

Do Alto Dos Montes


Oh! Meio dia da vida! Época solene! 
Oh! jardim de estio! 
Beatitude inquieta da ansiedade na espera: 
espero meus amigos, noite e dia, 
onde estais, amigos meus? 
Vinde! É tempo, é tempo!
Não é por vós que o gelo cinzento
hoje se adorna com rosas?
A vós procura o rio,
Suspensos nos céus ventos e nuvens se alevantam
para observar vossa chegada
competindo com o mais sublime vôo dos pássaros.

No meu santuário coloquei a mesa:
Quem vive mais próximo das estrelas
e das horríveis profundezas do abismo?
Que reino mais extenso que o meu?
E do mel, daquele que é meu, que sentiu seu fino aroma?

Aqui estais, finalmente, meus amigos!
Ai! não é a mim que procurais?
Hesitais, mostrais surpresa?
Insultai-me é melhor! Eu não sou mais eu?
Mudei de mão, de rosto, de andar?
O que eu era, amigos, acaso não mais sou?
Tornei-me, talvez, outro?
Estranho a mim mesmo? De mim mesmo, fugido?
Lutador que muitas vezes venceu a si mesmo?
Que muitas vezes lutou contra a própria força,
ferido, paralisado pelas vitórias contra si mesmo?
Porventura não procurei os mais ásperos ventos
e aprendi a viver onde ninguém habita,
nos desertos onde impera o urso polar?
Não esqueci a Deus e ao homem, blasfêmias e orações?
Tornei-me um fantasma das geleiras.
Oh! meus velhos amigos, vossos rostos
empalidecem de imediato,
transtornados de ternura e espanto!
Andai, sem rancor! Não podeis demorar aqui!
Não é para vós este pais de geleiras e rochas!
Aqui é preciso ser caçador e antílope!
Converti-me em caçador cruel. Vede meu arco:
a tensão de sua corda!
Apenas o mais forte poderá arremessar tal dardo.
Mas não há nenhuma seta mortal como esta.
Afastai-vos, se tendes amor à vossa vida!
Fugis de mim!? Oh, coração, quanto sofreste!
E entretanto, tua esperança ainda se mantém firme!
Abre tuas portas a novos amigos,
renuncia aos antigos e às lembranças!
Fostes jovem? – Pois agora és mais e com mais brio.
Quem pode decifrar os signos apagados,
do laço que une com uma mesma esperança?
Signos que em outros tempos escreveu o amor,
que luzem como velho pergaminho queimado
que se teme tocar, como ele. Queimado e enegrecido!

Basta de amigos! Como chamá-los?
Fantasmas de amigos! Que de noite,
tentam ainda meu coração e minha janela
e me olham sussurrando:
Somos nós!
Oh! Ressequidas palavras, um dia fragrantes como rosas!

Sonhos juvenis tão cheios de ilusão,
aos quais buscava no impulso de minhalma,
agora os vejo envelhecidos!
Apenas os que sabem mudar são os de minha linhagem.

Oh! Meio dia da vida! Oh! segunda juventude!
Oh! jardim de estio!
Beatitude inquieta na ansiedade da espera!
Os amigos esperam, dia e noite, os novos amigos.
Vinde! É tempo! É tempo!
O hino antigo cessou de soar,
O doce grito do desejo expira em meus lábios.
Na hora fatídica apareceu um encantador,
o amigo do pleno meio-dia.
Não, não me pergunteis quem é;
ao meio-dia, o que era um,
dividiu-se em dois.
Celebremos, seguros de uma mesma vitória,
a festa das festas!
Zaratustra está ali, o amigo,
o hóspede dos hóspedes!
O mundo ri, o odioso véu cai,
E eis que a luz se casa com a misteriosa,
subjugadora Noite.

(Nietzsche)




A Minha Felicidade



"Desde que me cansei de procurar,
aprendi a encontrar;

Desde que o vento começou a soprar-me na face,

velejo com todos os ventos.''
 
Nietzsche

Eterno Retorno






















"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"


Nietzsche,
A Gaia Ciência

Zarathustra

Os nossos maiores eventos não são os mais sonoros, mas nossas horas mais silentes.















Friedrich Wilhelm Nietzsche, Assim Falou Zarathustra (1885).